Em entrevista exclusiva, a influente economista e escritora Dambisa Moyo analisa os desafios que os países e as empresas irão enfrentar para retomar o crescimento econômico após a crise global provocada pela Covid-19. A especialista destaca as características mais importantes para as companhias se manterem competitivas nesse cenário e comenta sobre as oportunidades de negócios e de investimentos nos próximos anos

Durante a conversa, a especialista também detalha quais são os desafios que diferentes países irão enfrentar para alcançar a retomada do crescimento econômico, além de destacar as principais oportunidades de negócios e de investimentos para empresas de diferentes setores produtivos.

A entrevista foi conduzida pela sócia Vanessa Fiusa, da prática de Mercado de capitais. Confira os principais trechos abaixo. Para escutar a entrevista na íntegra, acesse sua plataforma preferida: Spotify, Deezer, Apple podcasts e Google podcasts.

Dambisa Moyo
Com sólida reputação internacional como consultora e assessora de confiança em várias empresas no âmbito da macroeconomia, geopolítica e tecnologia, Dambisa é conhecida por sua capacidade de influenciar importantes tomadores de decisão sobre investimentos estratégicos e o desenvolvimento de políticas públicas. É doutora em Economia pela Universidade de Oxford e foi eleita como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista Time em 2009.
Vanessa Fiusa
Especialista em mercado financeiro e de capitais, atua na assessoria de empresas, instituições financeiras e investidores. Suas atividades incluem ofertas públicas e privadas de títulos de capitais e de dívidas no Brasil e no exterior, além de outras operações de financiamento. Também assessora companhias abertas em aspectos regulatórios e autorregulatórios, especialmente relacionados à normas expedidas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), BM&FBovespa e Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Vanessa Fiusa: Como você avalia o panorama macroeconômico global mais de um ano após o início da pandemia de Covid-19? Quais países irão liderar a recuperação econômica global? E quais são as principais oportunidades de negócios e investimentos para uma economia emergente como o Brasil?

Dambisa Moyo: Obrigada pela oportunidade de estar aqui com vocês e pela oportunidade de responder a esta questão tão importante. Em 2020, boa parte das pessoas ao redor do mundo esteve de quarentena ao longo de vários meses, o que provocou um grande impacto na demanda agregada nas economias de diferentes países. Agora que já temos vacinas, devemos esperar uma forte recuperação e uma volta à normalidade com relação ao trabalho presencial e a viagens? É muito importante esclarecermos algumas questões com relação a isso.

Em primeiro lugar, quando digo recuperação, estou falando de uma retomada a partir de uma base econômica muito baixa. As previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI) indicam que o crescimento econômico aumentará cerca de 6% neste ano, o que faz sentido se observarmos a queda acentuada do Produto Interno Bruto (PIB) dos países em 2020. Entretanto, estamos falando de um “efeito rebote”, não de uma recuperação econômica. O que eu quero dizer com isso? Em 2020, antes da pandemia nos atingir de maneira mais grave, já estávamos preocupados com muitos desafios e adversidades que ameaçavam o crescimento econômico. Temas como o avanço da digitalização no mercado de trabalho – que tem sido um obstáculo ao criar uma subclasse de profissionais desempregados –, o risco do aumento das desigualdades de renda, as mudanças demográficas, as mudanças climáticas e a enorme quantidade de dívida pública que os países estavam carregando já ameaçavam criar um obstáculo ao desenvolvimento dos países. E todos esses problemas continuam aí, a despeito das novas adversidades provocadas pela pandemia. As previsões do FMI para 2022 e 2023 indicam um enfraquecimento da atividade econômica na maioria dos países.

Em relação aos países que irão liderar a retomada econômica a nível global, certamente aqueles que contaram com grandes programas de estímulo público terão vantagens, em sua maioria, em países desenvolvidos. A média do estímulo monetário nesses locais foi de 20% do PIB. Nas economias emergentes da América do Sul, da África e de partes da Ásia, o estímulo econômico foi de apenas 3% a 5%. Mas o principal fator que irá impulsionar a recuperação econômica é a capacidade de vacinação da população, para que se possa alcançar a chamada “imunidade de rebanho”. Muitos países sofrem com problemas estruturais com relação à disponibilização das vacinas e de testagens, e esses fatores continuarão, em minha opinião, a ser um importante entrave para a retomada dessas nações.

Sua última pergunta foi sobre oportunidades para economias emergentes como o Brasil. Nesses casos, a situação é bastante desafiadora. Isso se deve, em parte, ao que já descrevi, pois o quadro de crescimento econômico permanece bastante precário, particularmente para países que não têm acesso a testes ou a programas de vacinação. E o fato de que o mundo está se tornando mais desglobalizado e que o comércio pode continuar travado leva a um enfraquecimento das perspectivas para os países emergentes. Somado a isso está o fato de que muitos países emergentes estão “sentados” sobre uma grande quantidade de dívida, particularmente dívida pública, o que também enfraquece a recuperação desses mercados. E todas essas preocupações levaram muitas instituições multilaterais a advertir que poderíamos ver uma recuperação bifurcada ou “em forma de K”, na qual economias desenvolvidas, como os Estados Unidos e o Reino Unido, poderiam ver uma forte recuperação, mas muitos países emergentes continuariam lutando por muitos anos.

Muitos países sofrem com problemas estruturais em relação à disponibilização das vacinas, e esses fatores serão um importante entrave para sua retomada econômica”

Vanessa Fiusa: E, na sua opinião, quais setores da economia deverão se recuperar mais facilmente da atual crise sanitária? E quais ainda sofrerão os impactos em 2021 e nos próximos anos?

Dambisa Moyo: Há três cenários que vão impulsionar o sucesso econômico nos próximos 25 anos. Acredito que as carteiras de investimento de maior sucesso estão apostando na China como um cenário promissor e na tecnologia como sendo uma peça importante desse crescimento. Ainda não vimos a revolução que a tecnologia irá proporcionar em áreas como saúde e educação. A terceira área trata da transição energética e da economia verde. Quando penso em setores e oportunidades de recuperação após esta queda vertiginosa de crescimento econômico, estas são as três coisas nas quais aposto o sucesso a longo prazo.

Com relação a quais setores irão sofrer esses impactos, acho que qualquer área que não transitar para um mundo mais digitalizado será fortemente desafiada. As empresas convencionais, que não estão incorporando essas mudanças, ou investindo em tecnologias e se tornando mais sensíveis às questões ESG [Social, Ambiental e Governança, na sigla em inglês], também ficarão para trás.

Vanessa Fiusa: Um dos principais impactos da pandemia tem sido a incorporação acelerada de tecnologias no trabalho. As empresas têm diversificado seus investimentos nessa área, buscando alcançar alguma vantagem competitiva no mercado. No entanto, a adoção dessas tecnologias é apenas o primeiro passo. Quais caminhos gestores de empresas devem tomar para alcançar a “linha de chegada”, em sua opinião?

Dambisa Moyo: A questão ao redor da digitalização é apenas uma parte da pressão com a qual as empresas estão lidando no momento. A vantagem competitiva, a meu ver, para as corporações no século XXI, é realmente a digitalização, mas envolve também grande parte da agenda de ESG. Aspectos em torno do meio ambiente e, especialmente nesse momento, relacionados às desigualdades social, de renda e de acesso a saúde, educação e outros temas se tornaram incrivelmente mais desafiadores. E temos o “G” da sigla que, obviamente, significa “Governança”.

Todos esses aspectos são muito desafiadores e difíceis de implementar no curto prazo. Acho que as pessoas podem não entender muito bem que existem trade-offs para cada um desses aspectos. Por exemplo, você não combate a injustiça com a injustiça. Queremos garantir que mulheres e pessoas negras tenham oportunidades, mas não queremos perder a participação de homens brancos talentosos nas empresas. Portanto, todas essas áreas, seja privacidade de dados, justiça racial e de gênero, questões em torno da mudança climática, bem como equidade salarial, vão definir o sucesso ou o fracasso das corporações ao longo do tempo – além do mundo digitalizado. Portanto, sim, eu concordo que a tecnologia é o primeiro passo, mas se as empresas quiserem se manter competitivas no curto prazo, terão que se tornar mais inovadoras e muito mais hábeis na adaptação ao novo mundo de ESG.

A vantagem competitiva para as corporações no século XXI envolve investimentos em tecnologia, mas também grande parte da implementação da agenda ESG”

Vanessa Fiusa: E para se manterem competitivas e inovadoras, você acha que elas passarão a exigir novas habilidades dos seus profissionais? Você acha que os empregos do futuro serão muito diferentes do que temos hoje? E, por conta disso, você acredita que vamos ter um momento de desemprego acentuado, ou as pessoas se tornarão mais especializadas no mundo digital e em outros campos tecnológicos?

Dambisa Moyo: Isso é um fato consumado, não está sequer em discussão. Vivemos em um mundo de rápida digitalização e mudanças tecnológicas. Esta não é a primeira vez que a humanidade presencia algo desse tipo. Nos anos 1900, cerca de 60% da mão de obra nos Estados Unidos trabalhava na agricultura. Hoje, este número é inferior a 2%. As pessoas saíram da agricultura para a manufatura, depois da manufatura para os serviços. Atualmente, cerca de 80% dos norte-americanos trabalham no setor de serviços e cerca de 18% no setor de manufatura. O que isso mostra é que vemos o “vai e vem” e uma diminuição de empregos à medida que a própria economia se altera.

Todos os estudos realizados por instituições multilaterais, acadêmicos e empresários preveem uma mudança de um setor de serviços para um campo muito mais inclinado para a pesquisa e desenvolvimento – com isso, quero dizer que a ciência, a tecnologia, a engenharia e as habilidades matemáticas serão muito mais demandadas no futuro. Nos anos 1930, o grande economista britânico John Maynard Keynes já havia previsto que em 2030 teríamos uma semana de trabalho de 15 horas. Ele já estava esperando que o advento da tecnologia iria reduzir a semana de trabalho da maneira como vemos hoje. Portanto, eu espero que mudanças já estejam em andamento. Alguns estudos recentes – entre eles um do centro de pesquisa da Oxford Martin School – demonstram que a tecnologia provocará a perda de 47% a 49% dos empregos nos Estados Unidos.

Vanessa Fiusa: Neste sentido, Dambisa, em termos de recuperação econômica a curto prazo, quais deveriam ser as prioridades do poder público no desenvolvimento do capital humano para esta nova era?

Dambisa Moyo: Esta é uma pergunta muito boa que leva a uma questão ainda mais profunda sobre qual é o papel das corporações no século XXI. Em minhas conversas – estando em conselhos de administração e conversando com gestores e investidores –, posso assegurar que as empresas estão, hoje, preocupadas em lidar com os impactos da pandemia em suas atividades e, também, administrando duas mudanças substanciais no ambiente corporativo: a digitalização, que impacta a perda de empregos, e a desglobalização. Estamos vendo, em tempos recentes, que o comércio, movimento de capital, movimento de pessoas, a capacidade de concordar com padrões globais, tais como protocolos intelectuais sobre tecnologia e, é claro, a simples cooperação global têm sido ameaçados e, com isso, diminuído. Vimos também que o mundo não tem sido capaz de se unir, não apenas para combater a Covid-19, mas também para projetar políticas para sair da pandemia.

Sua pergunta é, essencialmente, sobre o papel das corporações em um mundo que está se tornando muito menos voltado para o trabalhador devido a esses riscos de digitalização e desglobalização, e não tenho dúvida de que isso é top of mind de muitas corporações hoje em dia. Há pouco tempo, publiquei um artigo na Harvard Business Review falando sobre como as empresas estão começando a reformular a discussão em torno do que constitui um funcionário – começando a pensar sobre os custos da saúde mental, que tradicionalmente eram deixados para o governo ou para os próprios indivíduos. Estamos começando a olhar para a criação de uma nova força de trabalho, onde teremos não apenas a automação em sua totalidade, mas também a automação juntamente a trabalhadores humanos, e como isso será visto em um ambiente de trabalho mais indefinido.

Estas são algumas das coisas que estão sendo debatidas. É um ambiente muito desafiador do ponto de vista das políticas públicas, pois isso significa que a ameaça de altas taxas de desemprego – inclusive para os jovens – é um grande risco para os governos e para as políticas públicas a curto prazo.

As empresas estão preocupadas em lidar com os impactos da pandemia em suas atividades e administrar duas mudanças no ambiente corporativo: a digitalização, que impacta a perda de empregos, e a desglobalização”

Vanessa Fiusa: Você acredita que este processo de desglobalização tem um impacto diferente nos países emergentes em comparação com os Estados Unidos e os países europeus?

Dambisa Moyo: Não tem um impacto diferente. Na realidade, nestes cinco pilares: (i) comércio de produtos e serviços, (ii) movimento de capital através da fronteira para repatriar lucros, (iii) movimento de pessoas – permitindo às empresas ganhar a “guerra por talentos” –, (iv) padrões globais e (v) cooperação global, cada país e cada empresa nos últimos 50 anos têm se beneficiado de um mundo extremamente globalizado. Na minha opinião, todos perdem em um mundo que está se tornando mais desglobalizado.

Agora, se sua pergunta é: há países que serão mais prejudicados por este processo? Sim, claro. Uma pequena economia aberta, na qual a maior parte das importações e do dinheiro dos investimentos de capital vem do exterior, obviamente terá desequilíbrios em comparação com países como os Estados Unidos – que, apesar de todos os seus desafios, é um país que, de maneira geral, tem seu próprio suprimento de alimentos, tem suas próprias fontes de energia e é majoritariamente independente no fornecimento de energia, tem ar limpo e desenvolveu seus próprios setores baseados na inovação, como o Vale do Silício, além de ter capital. Neste sentido, os Estados Unidos estão bastante isolados e estarão numa situação muito diferente no mundo desglobalizado do que uma pequena economia aberta na América do Sul, África e Ásia, ou mesmo na Europa – que é muito dependente dos diferentes pilares que mencionei. Em um sentido amplo, todos vão sentir a dor, mas alguns países vão definitivamente sentir mais do que outros.

Vanessa Fiusa: Você diria que sua análise sobre pequenos países de economia aberta também se aplicaria a empresas de pequeno e médio porte? Temos visto um impacto significativo da pandemia nas empresas menores e eu me pergunto se o que já foi visto nas pequenas economias se aplicaria às pequenas e médias empresas – e se estas teriam mais dificuldades para se reerguer.

Dambisa Moyo: Eu acho que as pequenas e médias empresas representam, em muitos casos, 85% da espinha dorsal de uma economia. E, independentemente de elas estarem localizadas em países desenvolvidos ou em desenvolvimento, vimos o enorme estrago que a pandemia provocou em suas atividades. No fim do dia, nenhuma companhia estava mais segura em um país do que em outro. É verdade que alguns países têm sido capazes de fornecer apoio e falamos sobre isso antes. Lugares como os Estados Unidos têm fornecido subsídios importantes, o que tem ajudado essas economias a superar esse momento desafiador.

Mas essas questões são bastante tênues, porque também acho que haveria oportunidades reais de crescimento para as pequenas empresas em um mundo mais dividido. É o modelo clássico de substituição de importações, no qual pode haver um aumento da produção pós-Covid com maior demanda às grandes empresas locais, bem como às pequenas e médias empresas. Não tenho dúvida de que o sucesso econômico a longo prazo terá de garantir que as pequenas e médias empresas façam parte dessa equação.

Vanessa Fiusa: Você mencionou que, desde o início da pandemia, uma série de medidas de política monetária e regulatória fiscal proporcionou a muitas famílias e empresas auxílios de emergência. Com essas medidas sendo gradualmente retiradas em alguns países, quais são as reformas estruturais mais importantes que os governos devem adotar a fim de fazer a transição para uma recuperação mais sustentável?

Dambisa Moyo: O mais importante é que os governos sejam eficientes no desenvolvimento de políticas públicas de longo prazo. Durante a pandemia, vimos que os países menos afetados pelos efeitos da crise foram aqueles que implementaram planos de contingência mais claros e bem estruturados. Mas não acho que exista uma fórmula mágica para essas reformas estruturais que você menciona. Todos os governantes sabem o que precisa ser feito. O desafio é eles estarem dispostos a fazer isso. Para mim, nenhuma economia vai sobreviver ou se recuperar de forma sustentável sem investimentos consideráveis em infraestrutura. Como exemplo, de acordo com a Sociedade Americana de Engenheiros Civis, a infraestrutura nos Estados Unidos é classificada como D+. Essa é uma nota baixa. Estamos falando de estradas, ferrovias, aeroportos, mas também da futura competitividade digital, que está deficiente. Em termos de reformas estruturais, a capacidade de recuperação da economia envolve garantir que os investimentos que estão sendo feitos sejam sustentáveis a longo prazo e gerem retornos construtivos e produtivos.

Outro aspecto importante é que os governos precisam se tornar mais visionários, de forma a olhar para além do seu período de mandato. Se olharmos para a história, e novamente vou falar dos Estados Unidos, o sucesso do país nas últimas décadas foi em grande parte impulsionado por governos que foram incrivelmente visionários. Peguemos como exemplos o desenvolvimento do Vale do Silício, o Projeto Manhattan na DARPA [Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa], todos os elementos foram contribuições-chave para o sucesso econômico do país, mas isso requer um governo que não esteja preso a medidas de curto prazo, e, sim, focado na sustentabilidade econômica de longo prazo, garantindo oportunidades para as futuras gerações.

Em termos de reformas estruturais, a capacidade de recuperação da economia envolve garantir que os investimentos que estão sendo feitos sejam sustentáveis a longo prazo e gerem retornos construtivos e produtivos”

Vanessa Fiusa: Uma última pergunta: você acha que o mundo está passando por um período de crescimento econômico anêmico? E, se sim, quais países estão sofrendo mais e quanto tempo devemos esperar que este ciclo dure?

Dambisa Moyo: Acho que uma boa maneira de responder a esta pergunta é, novamente, recorrer à história. Se olharmos para o que é chamado de “Era Dourada” nos Estados Unidos – este foi o período de 1870 a 1900 –, o país tinha um ambiente econômico semelhante ao que vimos de 1950 a 2008. Houve intenso crescimento econômico, intensa globalização, grandes corporações que se tornaram globais, assim como um governo relativamente laissez-faire. Infelizmente, estes foram dois períodos de aumento significativo da desigualdade de renda. Nos anos 1900, após a “Era Dourada”, três coisas aconteceram para mudar a história: primeiro, temos a Primeira Guerra Mundial, de 1914 a 1918. Em segundo lugar, a gripe espanhola – que matou pelo menos 50 milhões de pessoas em todo o mundo –, que foi de 1918 a 1920. A última coisa que aconteceu foi em 1929, quando tivemos o colapso da bolsa de valores e a depressão econômica que se seguiu. Também sabemos o que aconteceu depois da quebra em 1929: o mundo virou do avesso. Entramos em um período de 25 anos de baixo crescimento econômico – esse período no início dos anos 1930 é chamado de “Era Progressista” nos Estados Unidos. Em vez de termos a globalização, tivemos a desglobalização. Tivemos a Smoot-Hawley [Lei Tarifária de 1930], na qual alvos foram colocados no comércio. Em vez de menos participação do Estado na economia, tivemos um fortalecimento do governo e o estabelecimento do FDIC [Corporação Federal de Seguro de Depósito] e da previdência social, Medicare, Medicaid, e muitas das iniciativas de política pública que foram fortemente lideradas pelo Estado, à custa do setor privado.

Para contextualizar, de 1929 até 1954 a bolsa de valores não se movimentou. A máxima do índice Dow Jones foi de 381 pontos em 1929. A próxima vez em que o índice Dow Jones atingiu 381 pontos foi em 1954. Houve muito desemprego, baixo crescimento e um mercado de ações que não se moveu por 25 anos. Se nos basearmos nessa história e pensarmos onde estamos agora, tivemos um colapso econômico em 2008, uma pandemia global em 2020 – o que, como disse anteriormente, não creio que será resolvido nos próximos dois anos em uma perspectiva global – e, se tudo der certo, não teremos uma guerra. Mas, olhando para o mundo no próximo ano, estamos nos movendo para um cenário muito mais desglobalizado e uma postura de política pública muito mais progressista, no qual o risco é que veremos um baixo crescimento econômico – que já havia sido previsto antes da Covid.

Meu último ponto é que, ainda assim, fortunas serão feitas. Se pensarmos na década de 1930, a década também produziu pessoas como Howard Hughes, Henry Ford, os irmãos Wright, que inventaram o avião – todas essas inovações foram feitas durante esse período. As previsões econômicas são bastante sombrias e poderia haver políticas públicas muito mais agressivas em termos de impostos e regulamentações e de ruptura dos oligopólios e monopólios. Fortunas serão feitas e é muito importante descobrir onde essas fortunas serão feitas para o sucesso a longo prazo.